segunda-feira, 30 de abril de 2012

Poema: Os Lobos.




Os lobos não fogem.
Não por estupidez,
mas por louca coragem.

Os lobos são de difícil amizade,
mas, numa cega sensatez,
Uma vez estabelecida a confiança,
entregam-se por completo,
como Sancho Pança.
Seguem seu amigo pela eternidade
Com seu imenso amor de criança.

Os lobos admiram a lua,
não como fúteis humanos,
A elogiar-lhe a beleza,
A cantar-lhe em versos,
A inspirar reuniões de amigos cantantes
E serenatas em ruas escuras.

Os lobos, da lua, sabem os desenganos;
Da sua extrema tristeza;
De seus choros diversos
Ao saber-se sempre distante
Do seu amado sol.

Os lobos sabem,
Por isso, pela lua,
Choram: Auuuuuuuuú.

Poema: Uma Noite em Dezembro


Numa noite quente de Dezembro,
Meu ódio acumulado extravasou.
A noite tornou-se fria, como me lembro,
De todos os instantes em que minha vida se estragou.
O sentido perdeu o sentido.
Uma mão fria não se estendeu a tempo.
Meu ser rolou o mundo inteiro, perdido.
Numa noite quente de Dezembro.
Pergunto: Por quê?
Em gritos me desespero.
Traição. A sordidez do mundo violenta-me os sentidos.
Meus olhos veem a violência televisada.
Meus ouvidos escutam os berros de angústia.
Meu tato sente o gelo dos corpos em gavetas de necrotério.
Meu nariz sente o cheiro de enxofre.
Minha gustação perdeu-se na anorexia.
Pergunto: Quando tudo isto terá fim?
Quando a radiação assolar nosso planeta?
Quando formos todos sobreviventes, mutante?
E então pensarei comigo.
Por que meu ódio explode numa noite de Dezembro?

14.12.1990

sábado, 28 de abril de 2012

Afaste-se Tristeza


Hoje uma amiga revelou-me a tristeza.
O que me deixou simplesmente espantado.
Pois desta menina, via apenas a beleza,
Com o bom humor de um mundo encantado.

Tristeza, não devias a esta amiga procurar atingir.
Com isto tu mostras a tua indesculpável covardia.
Pois esta bela menina não aprendeu a fingir,
E queres que todos saibam que infliges agonia.

Mas é certo que pertence a ti, tristeza, a derrota.
Pois de ti, minha amiga irá retirar o aprendizado.
E tão certo quanto o poder da luz, voltará a sorrir.

Tristeza, de nada terá adiantado esta soberba que arrota.
Pois sabes que dos sentimentos é o menos amado.
E felicidade será o que para esta amiga, trará o porvir.

28 de abril de 2012.

PS. Minha querida amiga Titinha. Tenha a certeza que teu sorriso ilumina e faz os teus amigos felizes. Aprenda com a tristeza, mas também aprenda a afastá-la quando ela nada tiver a ensinar. 

Amiga Rô.


Existem pessoas que possuem o dom
De confortarem com palavras apenas.
Da tua boca, muito suave é o som,
Que as dores intensas reduzem a amenas.

Como é imensamente bom ser teu amigo,
Não apenas para no mesmo espaço conviver,
Também para ter no teu coração um abrigo,
Que contra as desventuras me faça sobreviver.

Saiba que também em mim, um amigo, encontras.
Para todos os momentos e situações que precisares,
Para ser um verdadeiro amigo, afinal de contas,
Precisamos tornar nossos corações verdadeiros lares.

E se um dia você estiver doente e acamada.
E se tiver, um dia sentindo intensas dores.
Mostrar-te-ei que por mim és muito amada.
Levar-te-ei palavras de conforto e flores.


28 de abril de 2012.

A Garota de Itaparica.





Muitos anos atrás na Ilha de Itaparica, quando ainda estudante de Medicina, sentou-se ao meu lado na praia de Barra Grande uma garota muito bonita. Me lembro de ter pensado isto, mas não consigo lembrar-me de seu rosto. Lembro-me apenas dos olhos, de cor igual ao céu de Itaparica, o que basicamente foi o fato que determinou que eu não conseguisse desviar dela a minha atenção; e dos cabelos castanhos claros cuja tonalidade passou a ser a minha favorita.

Hoje, flutuo entre a timidez e a extroversão, para algumas coisas sou tímido, para outras bastante extrovertido, mas já houve tempo em que a timidez era predominante. Principalmente no fim da adolescência e início da fase adulta. (Meus parentes e amigos sempre dizem que eu já era adulto aos 13 anos, mas prefiro pensar que não). Mesmo nesta fase de timidez acentuada, algumas vezes, para meu próprio espanto, munia-me de extroversão e humor e conseguia ultrapassar as barreiras impostas pela timidez.  

Passamos conversando por cerca de três horas, entre duas e cinco da tarde. Lembro-me de praticamente toda a conversa. E lembro-me de seus olhos e da cor de seu cabelo. Não me lembro do nome, nem poderia já que não perguntei.

Desta garota tive apenas uma conversa que considero interessante, pode até não ter sido. Mas toda a vez que o céu de Salvador fica mais escuro, ou vejo, em qualquer canto do mundo, um céu com a tonalidade de Itaparica penso nela e uma sensação de enorme carinho me invade.

Existem mulheres com quem tive intimidade, em relações que duraram dias ou semanas, que se passarem diante de mim não as reconhecerei. Em contraste, tenho certeza de que no dia em que voltar a ver os olhos na senhora que esta garota se transformou, mesmo que ela esteja completamente diferente, de cabelos pintados, mesmo que tenha engordado, com o rosto enrugado, me lembrarei de imediato dela e por observação, mesmo que ela tenha mudado bastante o rosto com a idade, lembrarei do rosto dela, o que tento agora e não consigo.

Por que estou escrevendo isto? Porque neste momento o céu de onde estou assumiu um tom mais escuro e uma enorme onda de carinho me envolveu e como sempre me lembrei dela, não de seu rosto, mas de seus olhos, de seus cabelos castanhos claros e da conversa que tivemos.