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domingo, 9 de novembro de 2014

Uma prancha, muitas ondas e uma Sereia.

Peguei meu carro e resolvi viajar de Salvador até o Rio de Janeiro passando por Porto Seguro, onde planejava ficar por uns dois ou três dias.

Estava recém-separado de uma mulher pela qual senti muito desejo e pouco amor. O amor ficou para os frutos deste desejo, dois filhos lindos, duas almas em construção. Sentia certa leveza por estar livre da hipocrisia de manter uma relação desgastada com o tempo e com isso providenciando um ambiente infeliz para meus filhos. Por isso a separação não foi opção, foi obrigação ética.

Ainda na BR101, na metade do caminho, resolvi passar por Itacaré, onde passei três dias surfando as melhores ondas que já surfei em Itacaré.

De Itacaré fui a Porto-Seguro onde passei outros três dias, curtindo as praias e o ambiente noturno movimentado de uma cidade pequena.

Saindo de Porto-Seguro, aproveitei para ouvir a mistura do som do motor de meu carro com a brisa matutina. Uma mistura de sons melhor do que muita música composta, principalmente nestes últimos tempos. Poucos quilômetros depois vi uma moça, no acostamento da estrada, que ao me perceber estendeu o braço e com a mão fez o gesto típico da carona. De longe a imagem já tinha impregnado a minha retina. Loura, cabelos compridos chegando à cintura, uma camiseta curta que terminava acima do umbigo e um short jeans, bem curto. Instintivamente reduzi a velocidade para ver melhor os detalhes. Notei as pernas elegantes, bem torneadas e chamativas diante dos sapatos de salto alto e o short pequeno, rasgado. Ela estava com pulseiras e colares de miçangas e uma pequena mala na outra mão. Ao chegar bem perto olhei para o rosto, lindo, e pensei nos meus dois filhos, ainda com um desejo intenso por aquela Sereia loura, mas com medo de que esta aventura pudesse ser alguma armadilha, não com medo pessoal, porque tinha perdido este medo depois de ter sobrevivido a algumas surpresas geralmente fatais, mas que no meu caso, não foram. Tive medo por meus filhos que dependiam exclusivamente de mim. Sorri para a Sereia e passei. A imagem da sereia, que impregnou minha retina jamais saiu da minha memória.

Nesta viagem tive duas oportunidades criadas. A primeira, não planejada, de surfar em Itacaré. Ao aproveitar esta oportunidade surfei melhores ondas que as surfadas nas viagens planejadas a Itacaré. A segunda oportunidade, de passar momentos surpreendentes porque inesperados, com uma Sereia. Esta, não aproveitei.

Jamais me arrependi das oportunidades que aproveitei, pois mesmo que tivessem um fim desagradável (o que não foi o caso da estadia em Itacaré) jamais foram tempos perdidos. Serviram de aprendizado, naqueles momentos, porque mal me lembro das oportunidades aproveitadas. Mas hoje, uma década depois, ainda me lembro da Sereia loura pedindo carona e imagino como teria sido se tivesse parado o carro. Talvez terminasse sendo apenas uma carona, o tempo, achado, aproveitado em uma conversa cujo aproveitamento, para mim, dependeria do canto da Sereia. Talvez terminasse numa aventura, com muitas paradas antes de chegar ao Rio de Janeiro que poderia se tornar um destino comum. Talvez a aventura terminasse num assalto, numa destas paradas. Talvez terminasse numa DST. Talvez a aventura não terminasse nunca e ainda estivesse vivendo-a hoje.

São muitos “talvez”, mas apenas por um motivo, por não ter aproveitado a oportunidade, e quando não se aproveita uma oportunidade, seu mundo se enche de “SE” e “TALVEZ” e termina num único “NUNCA”. Nunca saberei como teria sido se tivesse parado o carro.

E o “Nunca saber” dói bem mais que os “Se” e os “Talvez”.

sábado, 13 de julho de 2013

Um Mergulho na Depressão.



Sexta-Feira, dezembro, meados dos anos 80.
Ao entrar no centro de convenções senti o corpo gelar, uma sensação desagradável tomou conta de mim de forma surpreendente. Estava ali para receber o diploma de médico.  Foi um evento social com certo impacto. Pela primeira vez, desde a implantação da ditadura militar, que uma turma de medicina se formaria em uma única solenidade. Estávamos naquele momento representando para a sociedade algo considerado perigoso pelos militares, uma classe com sentimento de classe. Meu Deus! Quanta hipocrisia. A sociedade não foi informada que neste grupo de formandos, muitos arrancaram dos quadros no hospital e faculdade de medicina os avisos de estágios e cursos de fora da faculdade para evitar concorrência. Que havia aqueles que entraram exclusivamente pela política e que jamais veriam um paciente na vida de, entre aspas, médicos. Também aqueles, exceções, a bem da verdade, cujos comportamentos aéticos deveriam ter provocado suas expulsões da faculdade.
Sentia-me mal por participar daquela hipocrisia, a turma formada unida, nada tinham de união a não ser a própria formatura. As diferenças chegaram ao ponto de termos dois oradores, impostos por dois grupos conflitantes.
O último conflito, a própria roupa que usávamos. Uma turma não abria mão da Beca, outra não abria mão do terno. Depois de uma manhã inteira de discussão, a maioria da turma decidiu que seria terno cinza com uso obrigatório do colete. Avisei antecipadamente que não usaria colete, afinal Salvador era uma cidade de clima acalorado e eu não iria me sentir desconfortável por causa de roupa alguma. Quando cheguei ao salão principal do centro de convenções reservado para nossa formatura, percebi que alguns colegas que não se manifestaram na reunião final também não estavam usando coletes. Esta era a turma dos independentes.
Meu pai, que estaria muito orgulhoso neste dia, havia morrido três anos antes vítima de um AVC. Minha mãe fez questão de estar acompanhada da minha tri-ex-namorada, forçando uma reaproximação que eu não desejava. Meu olhar de reprovação disse tudo por mim ao ponto de fazer minha mãe cochichar-me no ouvido: “Comporte-se com ela”.
Sorri ao receber meu diploma, meu sorriso social, aparentemente feliz, totalmente falso. Era muita hipocrisia para uma noite apenas. Com o diploma na mão pensava apenas que tudo daquele dia em diante seria minha responsabilidade, eu teria um preceptor na residência, treinando-me, pelo menos esta era a percepção de uma residência, mas no fundo eu sabia que os erros seriam os meus erros, de mais ninguém. Como eu lidaria com os erros? Se e quando acontecesse eu teria a habilidade de repará-los em tempo? Estaria realmente preparado para ter a responsabilidade de uma vida sob as minhas mãos?
A noite foi rápida, ao que me lembro. A festa no Clube Baiano de Tênis foi restrita a poucos convidados por aluno, afinal eram muitos os formandos. Mas como meu grupo de colegas com quem saia para farras era razoável, tive muita gente para dar atenção e evitar uma conversa que seria desagradável com Carla. Felizmente, para ela, Carla se comportou como a namorada silenciosa, ficando ao meu lado boa parte do tempo, mas sem falar nada. Os amigos que sabiam da minha condição de solteiro me olhavam interrogativamente e através da linguagem dos olhos tinham suas dúvidas esclarecidas.

Sábado.
Minha mãe reuniu a família e amigos para um almoço, Carla, novamente convidada. Quando a vi, disse de imediato a minha mãe que estava do meu lado:
- Se a senhora gosta tanto dela, porque não casa a senhora com ela?
Levantei-me e fui de encontro a Carla que beijou-me na boca. Segurei a mão de Carla e a levei para meu quarto. Tranquei a porta.
- Carla, nós terminamos. – disse. No mesmo tom em que diria a um paciente que ele está na fase terminal de um câncer. Com suavidade e certa melancolia.
- Mas nós já terminamos e voltamos algumas vezes – tentou argumentar ela.
- E você quer viver um relacionamento vai e vem? Este tipo de relacionamento é como um iô-iô mal manejado, a cada volta tem menos cordão a percorrer e honestamente, da forma como vejo, na nossa relação não tem mais corda pro iô-iô andar. Já parou de girar.
- Você não sente mais nada por mim? – Carla perguntou já em tom choroso.
- Sinto muito carinho, sinto o amor que nunca se perde por quem queremos bem, mas não vejo futuro para nós dois como casal.
- Por que não?
- Porque você já reclamava muito das minhas atividades profissionais como plantões e também do tempo que eu passava com amigos ou pegando onda. E agora vai ter muito menos tempo e sinceramente não quero mais passar meu tempo de sexo e carinho ouvindo incessantes reclamações.
- Mas eu posso mudar.
- Já ouvi isso antes e advinha, você não mudou. Você não vai mudar. Você sabe disso, eu também, vamos recomeçar uma relação baseado nesta mentira?
Ela chorou, mas por pouco tempo. Ela já esperava este desfecho afinal eu sou completamente previsível para quem me conhece, tenho um código de ética do qual não desvio e baseado neste código sequer perco tempo com fingimentos, logo, quem me conhece sabe o que esperar de mim, que eu seja eu mesmo.

Domingo.
Minha mãe queria sair para almoçar comigo, achei muito estranho, afinal o favorito dela era meu irmão, aquele que a obedecia sempre e fazia todas as suas vontades. Lembrei o quanto ela me azucrinou para não fazer medicina e sim administração. Disse a ela que iria surfar. Peguei minha prancha e fui para uma praia que não frequentava porque não queria encontrar ninguém, conversar ou ser social. Queria o silêncio, a introspecção, saber o que esperar de mim diante do desafio que estava a minha frente. Não era mais um estudante de medicina, era um médico. O que acompanharia esta mudança? Dúvidas e mais dúvidas.
Cheguei à praia, finquei a prancha na areia e lá fiquei, horas, olhando as ondas e pensando em nada.
Senti alguém próximo, Janos, um dos meus colegas formandos, que também surfava. Janos fincou a prancha dele próximo a minha e sentou-se ao meu lado.
- Descansando? – perguntou-me Janos
- Não entrei ainda.
- Chegou agora?
- Tem um tempo.
- Estranhei te ver aqui. Sei que você não gosta deste ponto pra surfar.
Tive vontade de responder que estava ali por achar que ficaria sozinho, mas a educação não me permitiu. O que me impede de ser totalmente transparente é a maldita educação. Não consigo lembrar-me de quantas vezes desejei mandar a educação pros quintos dos infernos e não fiz. Fiquei calado, como naquele momento.
- Você também se sentiu deprimido? – perguntou-me.
- Vim aqui para isso, para mergulhar na depressão, deixá-la consumir-me por inteiro, por horas. E mandá-la embora. Quando voltar para casa quero estar limpo, de depressão ou euforia para tomar as decisões que preciso sem nenhuma influência emocional.
- Posso ficar aqui e mergulhar na depressão também?
Achei a pergunta estranha. A praia é pública porque ele precisaria de minha permissão?
- Fique a vontade.
Por mais uma hora continuei ali, sentado e mergulhado na depressão. Enfim voltei à tona, respirei o ar, livre de emoções. Levantei-me, apertei a mão de Janos sem falar uma palavra. Peguei a minha prancha, caminhei até o carro, amarrei a prancha no rack e ao ligar o carro percebi que tinha que abraçar todas as responsabilidades que viriam adiante e pronto, já tinha tomado a minha primeira decisão como médico, iria morar sozinho. 
Pensei em minha mãe sabendo que ela iria querer saber a razão desta minha decisão. A resposta já estava pronta:
Existem caminhos a serem trilhados na solidão.

terça-feira, 26 de março de 2013

Uma Conversa com Pedro.


Morri.
Causa mortis? Nem faço ideia. Estou numa antessala para falar com o braço direito do Homem, ou seja, devo ter sido considerado indigno de falar com o Próprio e eu vou lá fazer questão de saber do que morri?
Pouco tempo depois ouvi uma voz dizendo que eu devia entrar na sala. Procurei o alto-falante de onde o som da voz poderia ter saído e não achei. Entrei na sala e me deparei com um homem de barba e cabelos compridos um pouco grisalhos. Parecia comigo. Esta semelhança seria proposital? Com todos que entram na sala para que se sintam confortáveis? Sorri para o homem.
-Titus Magnus Augustus Brigante? – perguntou o homem com uma voz grave, porém agradável.
- Sim – respondi estranhando o fato de ele fazer uma pergunta retórica, ou haveria casos de erros de identificação de mortos até entre os espíritos ou que nome tenham aqueles que vivem do outro lado da vida?
- Pode sentar-se – disse o homem.
Sentei e de imediato reparei que os olhos dele eram castanhos, portanto esta semelhança não era completa e notei, de forma preocupante, duas portas na parede por trás da mesa dele. Será que foi por isso que não vi ninguém saindo da sala antes de entrar? Será que cada uma das portas seria de um destino diferente a depender do nosso comportamento em vida?
Ele pareceu ler meus pensamentos porque me perguntou em seguida:
- Você sabe que está sendo julgado?
-Entendi, Sr? – perguntei.
- Pode me chamar de Pedro.
- Então Pedro, você será o juiz, o promotor ou meu advogado de defesa?
Ele riu.
Objetivo inicial cumprido. Estava tentando ser simpático qualquer que fosse a função dele.
- Nenhum. Esta é uma audiência de conciliação e tenho um ponto de escuta no meu ouvido.
Definitivamente, neste lugar pós-vida, eles tinham senso de humor.
- Para começar vamos falar das coisas boas que você fez na sua vida ....
Vamos pular esta parte da conversa, não tão longa quanto eu gostaria, porque não estou contando esta história para me gabar dos meus acessos de bondade.
- Agora vamos falar dos pecados – disse ele com uma voz mais grave do que a que eu já me acostumara a ouvir. – Nos últimos 35 anos você não procurou a igreja na qual foi batizado e fez sua primeira comunhão, não confessou seus pecados e nem mostrou arrependimento. O que você tem a falar em sua defesa?
- Bom Pedro, você já respondeu a sua pergunta. Porque vou confessar um pecado se eu não me arrependi deles. Para rezar um sem número de Ave-Marias e Pai-Nossos e voltar a cometê-los sem o mínimo remorso?
-Não sente remorsos deles?
- Pelo que me lembre, cometi apenas três pecados capitais na vida, a gula, a luxúria e a ira. Da gula e da luxúria não me arrependo mesmo, cometi e se tiver comida e mulheres para onde vou já aviso logo que vou continuar cometendo.
- E sobre a Ira, o que você tem a dizer? – perguntou Pedro.
- Lamento o fato de ter perdido a calma, ou o controle, mas jamais o fiz em proveito próprio, sempre que fiquei irado foi para defender uma pessoa inocente, ou uma causa que achava justa.
-Sabemos disso. Mas além destes pecados capitais você infringiu um dos mandamentos. Sabe do que estou falando? – perguntou-me.
- Sei, mas Pedro, como é que vem aqueles mulherões, me dão a maior bola e eu não vou sentir desejo? Só se tivesse algo errado comigo.
- Mas você não ficou apenas no desejo, você de fato cometeu adultério.
- Porra Pedro, você deve saber que aviões eram a Heloísa, Angelina, Matilde, Juliana, Jeanne, Scarlett, Maria Eliza, Elizabeth, Cristinne, Luciana e as outras. Tudo avião e eu vou me negar a pilotar?
- Estas eram atraentes, mas você também cometeu adultério com mulheres que não eram tão aviões assim. – respondeu, talvez querendo agravar a acusação.
- Você sabe que depois de um litro de vodca qualquer teco-teco vira um Boeing. E você tem que me dar o desconto que na primeira vez de muitas delas eu nem sabia que eram casadas.
- Na primeira vez, e nas outras em que você já sabia e continuou assim mesmo?
- Ora Pedro, o pecado já tinha sido cometido, seria outro pecado não continuar aproveitando.
- E o mal que você causou aos maridos traídos? – perguntou Pedro.
- Se causei algum mal foi involuntário, corno só dói quando se sabe dele e por mim ninguém jamais ficaria sabendo.
- Mas alguns ficaram sabendo.
- Por culpa delas que contaram, eu sempre fui muito discreto, tenho culpa se elas quiseram machucar seus maridos?
Pedro sorriu. Ele não parecia um promotor ou um juiz. Parecia até se divertir com a minha autodefesa. Então, numa voz bem tranquila ele começou a falar:
- Levando em consideração seus atos de bondades e seus pecados cometidos, devo ....
No momento que ele começou a falar uma das duas portas se abriu, vinha uma luz azulada, mas isto não dizia nada, afinal se estávamos no céu e a cor deve ser azulada, isto não implicaria se eu iria pro inferno ou não.
Tentei lançar um último recurso de defesa.
- Posso pedir um grande favor? –perguntei interrompendo-o.
- Peça. – disse em voz tranquila.
- Você pode fazer uma dosimetria da pena levando mais em consideração as bondades que fiz?
Pedro começou a rir, não era um sorriso, era uma gargalhada. Ainda rindo, ele continuou de onde tinha parado:
- Levando em conta e pesando todos os prós e contras, decidimos que a pena deva ser...
A porta aberta fechou-se de repente. Senti que fui chacoalhado. Uma voz feminina se fez presente:
- Acorda, acorda, se esconde que meu marido está chegando.- disse Heloísa.
- Me esconder aonde? Eu sou muito grande para caber dentro de um armário.
- Se esconde no banheiro, vou disfarçar e sair com ele dizendo que estou passando mal. Use minha chave pra sair – disse ela enquanto me estendia a chave que estava na cabeceira da cama.
Enquanto estava no banheiro pensei se minha conversa com Pedro tinha sido apenas um sonho, ou se eu voltara no tempo para tomar conhecimento de minha Causa Mortis.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Ser fiel ou não ser fiel - Eis a questão


Um conto, sobre ser fiel aos amigos. Se você tem menos de 18 anos, não leia.



O início desta história deu-se na primeira metade dos anos 80. Mal saído da adolescência eu era considerado um jovem bonito, mas sem aquela beleza feminina, pelo contrário, rosto com traços fortes, olhos verdes, cabelos claros. Minhas amigas me diziam que ninguém seria capaz de resistir a um olhar e um sorriso meu. Bem, eram minhas amigas, portanto o quanto existe de verdade nisso é questionável. Fato era que não tinha dificuldade de ter vários relacionamentos vazios. Os anos 80 também ajudavam nisso.

Ainda estudante de Medicina, jogava tênis três noites por semanas. Tinha um parceiro de duplas com o qual fiz grande amizade por uns dois anos. Na quarta-feira depois do tênis íamos até a casa dele jogar xadrez. Ele era casado apesar de ter cerca de 22 anos, por aí, não me lembro deste detalhe. Uma quarta-feira ele não apareceu para jogar, mas antes de sair para o clube recebi um telefonema da esposa dele para passar na casa depois do tênis para a partida de xadrez.

Cheguei à casa dele mas este amigo não estava. A esposa disse que ele iria demorar um pouco, mas chegaria. Ela me serviu um Hi-fi, que eu sempre bebia nestas noites. (minha paixão por vodca é anterior à paixão pelo tênis feminino russo). Sentei-me numa ponta do sofá de 3 lugares e fiquei cabreiro quando ela sentou no meio do sofá e começou um papo bem direto do quanto ela me achava atraente. Nem terminei o drink (e bebo rápido, em 4 goles mais ou menos) e ela já estava com a mão aonde não devia e beijando-me a boca. Levantei-me rapidamente, não foi “no susto” porque estava esperando. Disse a ela que respeitava o meu amigo .... (Lembro-me do nome, é claro, mas não vou dizê-lo aqui, né?) ...etc e me mandei.

Não dormi direito aquela noite pensando se deveria contar ou não, nem a do dia seguinte, mas porque dava plantão no Hospital Geral do Estado, ainda no bairro do Canela, toda quinta-feira à noite. Com duas noites mal dormidas, na sexta-feira após a aula passei rapidamente em casa para me trocar e ir ao Clube Bahiano de Tênis, já decidido de que nada falaria a meu amigo.  Afinal omitir não é mentir. Quando precisamos, acreditamos nisso.

Quando o vi no clube, não precisei dizer nada, ele já apareceu bufando, me chamando de FDP e com a mão fechada. Eu sabia que ele lutava, mas eu praticava artes marciais e aproveitei minha maior envergadura já que eu era quase vinte centímetros mais alto do que ele. Antes que eu tivesse ao alcance dele, acertei um direto no queixo que o derrubou. Facilmente o imobilizei, esperei que ele parasse de me xingar para dizer, não me lembro bem as palavras exatas afinal já tem um quarto de século, mas deve ter sido mais ou menos assim: “Não fiz nada com ela. Você que me conhece (na verdade não conhecemos ninguém, aprendi com os anos) deveria saber que eu não te sacanearia. Não sou escroto, mas eu bem que devia ser, seu corno de merda”.  Percebi que já tinha gente suficiente em volta para soltá-lo. Esses conhecidos do tênis certamente o impediriam de tentar levar uma surra, pois este seria o desfecho óbvio. E assim foi.

No momento que o vi com a mão fechada na minha direção soube de imediato que a nossa amizade estava terminada. Mas estava com a minha consciência tranquila. Por uns bons anos evitei ficar a sós com mulheres de amigos, afinal gato escaldado tem medo de água fria.

Alguns anos depois, no início dos anos 90, vivendo no Rio, estava no Shopping Rio-Sul em Botafogo quando encontrei o filho de um grande amigo, no Shopping, quando este garoto de 17,18 anos me colocou a seguinte situação: Se eu estivesse interessado na namorada de um amigo, o que eu faria? Lembrei-me do caso acima e contei-o a este garoto, que com o passar dos anos tornou-se também um amigo.

Ele me perguntou: “Mas o que você faria hoje, sabendo disso”.

Perguntei de volta: “Essa namorada é muito atraente?”.

Ele: “Muito atraente mesmo”.

Respondi: “Sendo assim, se ela não der em cima de mim, fico no tesão mas não perco a amizade por isso. Mas se ela der em cima, já que eu vou perder o amigo mesmo, mato o tesão junto com a amizade”.

Ele não disse nada, achei que ele estava interessado na namorada de algum amigo. Anos depois soube que não era exatamente isso. Um grande amigo dele dera em cima da namorada dele.

Depois de alguns anos longe do Rio, no final dos anos 90 voltei ao Rio para fazer outra pós-graduação. Recém-separado da mãe de meus dois filhos, morava em um apartamento na Prado Júnior, próximo do “Cervantes” aonde eu sempre comia um sanduíche por volta das duas da madrugada, principalmente o de pernil com abacaxi.

Nesta época eu saía do Fundão por volta das três da tarde para dar tempo de chegar em casa e caminhar pelo calçadão de Copacabana antes do anoitecer. Nestas caminhadas encontrava frequentemente no calçadão de Copacabana a namorada do amigo do Shopping, que ainda era a mesma. Ela andava sempre com a irmã e geralmente as duas mudavam de direção para me acompanhar. Algumas vezes elas passavam no meu apartamento e conversávamos amenidades.

Numa das muitas madrugadas, em que eu trabalhava no computador, tocaram a campainha do meu apartamento por volta de 1 hora. Pelo olho mágico vi que era uma garota e tinha os cabelos parecidos com a namorada do amigo do Shopping. Como o olho mágico estava muito arranhado, não dava para ver direito as feições. Pensei o que ela estaria fazendo ali naquela hora da madrugada. Abri a porta e vi que não era ela, mas uma linda garota de programa que me perguntou se eu era um tal Sr. X (vê se vou me lembrar do nome de alguém que nunca vi na vida, dez anos depois?). Respondi que não, que era engano. Ela: “Que pena”. Eu olhei para a garota, era destas de catálogo (se bem que eu nunca andei vendo estes catálogos, apenas sei da existência deles) e disse: “Não seja por isso, pode ficar aqui, mas não vou pagar nada”.  Ela era linda, valia o convite. Para minha surpresa ela aceitou. Aos quase 40, estava no auge de minha forma física e segundo minhas amigas antigas mais bonito ainda. (Isto definitivamente confirma minha falta de modéstia, mas é verdade). Uma hora depois ela saiu apressada certamente pensando que desculpa iria dar pelo atraso. No dia seguinte o porteiro me olhou com uma cara divertida e disse: “Se deu bem!”. Compreendi que os porteiros deixavam as moças subirem e que na noite anterior o “cliente” deve ter interfonado várias vezes para saber o destino da garota.

Dias depois, quase no mesmo horário, tocaram de novo a buzina do meu apartamento. Vi uma moça de cabelos escuros compridos pelo olho mágico. Pensei que era a garota de programa ou uma colega dela querendo repetir o “engano”. Não era uma garota de programa, mas a namorada do amigo do Shopping. Mal abri a porta ela já foi entrando, linda, com um brilho sapeca nos olhos, bebaça, reclamando do namorado que não a satisfazia sexualmente. Passou os braços em volta do meu pescoço e com toda força me inclinou para que eu ficasse numa altura que ela pudesse me beijar. Então me beijou com fúria. Ainda atordoado, inicialmente correspondi, mas logo me desvencilhei. Perguntei como ela tinha chegado ali, ela respondeu que a irmã a deixou de carro e foi para casa. Como ela morava perto me propus a leva-la em casa. Ela foi direta: “Vim aqui para foder com você, se você não me foder vou dar pro primeiro que quiser. Mário (Claro que não é o nome dele) que se foda. Eu quero gozar. Cansei de servir de boneca inflável. Ele nunca me chupou, goza e vira de lado. Que se foda. Eu vou é gozar com você.”

Não sabia o quanto de álcool era responsável por ela estar dizendo isso, mas que tinha álcool não havia dúvida, ela nunca usara palavras “pesadas” comigo. Com um tom suave disse para ela: “Não sou o tipo de homem que transa com mulher alcoolizada, vamos tomar um banho, depois um chá e aí veremos”.

Dar o banho nela foi difícil. Ela tinha um corpo de carioca (preciso dizer mais?) e ficava me beijando o tempo inteiro. Me tocava e obviamente reagi. Ela olhava pro dito cujo enquanto o pegava e dizia: “É hoje”. E eu pensava: “Me fudi, perdi um amigo”.

Nem ensaboei, o banho foi água fria somente. Tirei ela do box, enxuguei-a e tentei colocar a calcinha dela enquanto ela resistia dizendo: “Para quê?”

Respondi: “Para não tomar o chá pelada”. Consegui finalmente que ela vestisse a calcinha. Procurei uma camiseta, mas não tinha nenhuma limpa a não ser a que eu vestia. Lavava minhas roupas a cada quinze dias numa lavanderia na mesma quadra, e isto seria dali a dois dias. Peguei uma camisa de “trabalho” branca limpa, que nela se transformou em vestido curto de botões.

Assim que preparei o chá, quando a olhei para servi-la ela estava encostada, girando a calcinha no dedo indicador da mão. Aquela visão icônica de uma mulher nua somente com sua camisa, ela parecendo a Jane Birkin. Minha mão que jamais tremeu nas cirurgias que fiz não conseguia segurar firmemente a xícara, o barulho das porcelanas se batendo, eu agradecendo de não ter enchido a xícara. Deixei em cima da mesa e sentei-me. Disse-lhe para tomar o chá de erva cidreira para evitar a dor de cabeça pela manhã. Depois que ela tomou o chá, levei-a até a cama, deitei-a no colo e pedi que ela me contasse o que aconteceu com Mário. Fiquei acariciando os cabelos dela, e quando eu falava o fazia num tom monocórdico até que ela adormeceu. Acomodei-a direito na cama e fui dormir no sofá-cama da sala.

De manhã a acordei porque tinha que chegar cedo ao Hospital do Fundão.

- O que aconteceu? Como vim parar aqui? – Perguntou ela.

- Segundo você. Sua irmã te deixou aqui. – respondi.

- E o que eu vim fazer aqui?

Não sabia se ela estava mentindo ou se estava mesmo com amnésia alcóolica, até hoje ela jura que não lembra.

- Você chegou dizendo que queria transar comigo.

- Nós transamos?

- Claro que não. Você estava bêbada. Te dei banho, te vesti e te coloquei para dormir. Dormi aqui no sofá.

Ela viu que o sofá estava com roupa de cama toda amassada.

- Obrigado, e desculpa pelo vexame (não foi o termo vexame, não me lembro do termo, apenas que ela se desculpou).

- Não foi nada. Você estava bêbada. Tem café solúvel. Vou te deixar em casa antes de ir para o Fundão.

Ela me olhou “daquele” jeito. E sorriu. Não precisava dizer mais nada. De imediato nós dois sabíamos o que iria acontecer.

O que aconteceu eu não conto. Não tem importância. A “moral da história”? Também não tem.

Faça o que fizer, você sai perdendo, uma amizade, uma consciência limpa, um pecado cometido, ou um pecado não cometido (porque existem pecados que valem a pena serem cometidos). No fim, ganha apenas uma coisa, uma história para contar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Viver um Sonho. - Parte 2



Ele estava sentado na lateral da cama de casal do quarto de hotel. Colocou as grandes mãos no rosto e soltou um suspiro. Estava vivendo em ritmo acelerado, os compromissos profissionais apareciam um atrás do outro. Consequência da boa imagem que passou no Reality que participou. No dia seguinte tinha um compromisso que talvez não fosse o mais importante, mas com certeza o mais ansiosamente esperado.

Havia uma grande expectativa dele mesmo com o encontro do dia seguinte e ele também estava consciente  de que aquele encontro contava com a expectativa de milhares de fãs, que afinal de contas, foram eles que conseguiram aquele trabalho específico, aonde estariam como um casal para fotos de noivos.

Ao ouvir o telefone do quarto tocar sentiu o coração disparar e percebeu as mãos tremendo. Diversos pensamentos passaram na cabeça, cancelamento do compromisso do dia seguinte, ligação de sua mãe, ou dela, ou de sua assessora, ou de um diretor da agência. Saltou da cama em um pulo para atender logo a ligação.

- Alô – disse ele.

- Big Johnny – falou em tom alto, um dos amigos que fizera no Reality, o amigo que ganhara o prêmio principal.

- E aí Abel? Como vai a vida de milionário? Muita gatinha em cima? – disse Johnny.

Uma risada do outro lado da linha.

- E como vai a vida do mais famoso modelo do momento?

- Que famoso nada.

- Estão pagando bem os trabalhos?

- Não vou reclamar senão Deus castiga, mas bah, podia ser melhor não é?

- Trabalhando muito?

- Tenho que aproveitar a onda, você como surfista – riu enquanto dizia – sabe bem que não dá para pegar toda onda, então temos que aproveitar.

- Aproveite muito, mas pode ficar sabendo que muitas outras ondas virão, amigo. E amanhã, vai encontrar com a Princesa?

- Pois é, estou tão confuso cowboy.

- Confuso por quê?

- Você sabe o que sinto por ela, mas ao mesmo tempo, muita gente vai pensar que estamos juntos apenas para ganhar dinheiro como casal.

- Johnny, em vez de se preocupar com o que pensam de você, se preocupe com o que você pensa de si mesmo. Afinal o que está em jogo agora é a sua felicidade.

- Mas você sabe como a imagem no meu trabalho é muito importante.

- Essa imagem está sendo formada pelo seu trabalho. O seu profissionalismo é o que vai importar, isso é o que vão falar para os outros contratantes, não com quem você está.

- Verdade – disse Johnny enquanto assentia com a cabeça em um gesto característico apesar de não ter ninguém para ver. – Mas eu não sei até quando eu vou ser interessante, entendeu? Não sei quanto tempo esta onda vai durar.

- Rapaz. Adianta se preocupar agora? Você sempre disse que iria trabalhar muito enquanto pudesse e tentaria economizar para fazer um pé de meia. Faça isso, trabalhe muito e bem e faça esta onda durar, das outras ondas trate depois, quando tiver que tratar.

- Obrigado amigo. – disse Johnny.

- Não tem que agradecer nada. – falou Abel – Vá com Deus e boa sorte amanhã.

- Fica com Deus, amigo. – despediu-se Johnny.

Desligou o telefone, voltou para cama onde ficou sentado algum tempo, voltou a por as mãos no rosto por alguns minutos, então se deitou na cama e dormiu rapidamente. Ele era um desses privilegiados que consegue dormir facilmente, o milagre estava em não acordar com o próprio ronco.

Lapso de tempo.

Quando deu por si mesmo, Johnny estava ao lado de Zelda, sua assessora. Estavam entrando no estúdio de fotografia aonde ele e Regina fariam as fotos para a revista que os contratara.

- Será que ela já chegou? – perguntou Johnny a Zelda assim que entraram no prédio do estúdio.

Não conseguiu conter a curiosidade por mais que desejasse.

- Pode ser. Não sei. – respondeu Zelda.

Quando entraram no estúdio, Johnny a viu. Ela olhou para ele e sorriu. Ao ver aqueles olhos de piscina, Johnny sentiu o corpo gelar, um calafrio percorrer a espinha e explodir em sua nuca, a boca secou, passou a sentir o coração batendo e de imediato sorriu de volta. Ninguém notou nenhuma das reações que Johnny teve, ele aprendeu a disfarçar todas as suas emoções com o mesmo sorriso, aberto, uma arma de desarme, dos sentimentos dos outros e mais importante, dos seus próprios sentimentos.

Regina andou na direção de Johnny que a abraçou de imediato beijando-lhe a testa. Duas fãs aproximaram-se rapidamente com fotos dos dois pedindo para eles autografarem. Os dois sorriram um para outro, trocaram o olhar provocativo de sempre e então assinaram as fotos. As duas fãs pediram para eles fotografarem junto com elas e eles atenderam. Depois pediram que eles ficassem juntos para tirarem fotos deles juntos. Johnny se posicionou por trás de Regina. O topo da cabeça dela na altura de seu peito. Johnny respirou profundamente e sentiu o perfume que desejava sentir o cheiro em muitos momentos em que esteve sozinho na casa do Reality. Voltou a sentir o frio no corpo, o calafrio na espinha e na nuca, o coração a bater e desta vez mais acelerado. Abriu o sorriso na esperança do efeito calmante, mas desta vez não conseguiu. As sensações permaneceram, as mãos começaram a tremer, para disfarçar apoiou a mão esquerda na própria perna e a direita no quadril de Regina. Sentiu a mão de Regina tocar a sua mão direita em uma carícia gentil, despertando o que Johnny considerou uma sensação esquisita na altura do estômago. O suor começou a aparecer na testa. Chegou a ser um alívio quando pararam de tirar aquelas fotos ao serem chamados para o trabalho.

Johnny sentia aquele trabalho como o mais difícil da sua vida, ao vê-la de noiva, quanta vontade sentia de tomá-la nos braços e entrar no quarto da lua-de-mel. Toda aquela interpretação o torturava porque sabia no fundo que desejava que não fosse apenas um trabalho. Como desejava que aqueles sorrisos e olhares dela não fossem interpretação. Ele não sabia que não eram.

Não sabia ler pensamentos – lamentou-se Johnny que ansiava saber o que Regina estava pensando. Infelizmente, esta é uma faculdade que poucos possuem.

Ao final do trabalho, os dois olharam um para o outro, olhares de ansiedade, expectativa. Ambos esperando que o outro tomasse a iniciativa, o silêncio se prolongando, os olhares perdendo a ansiedade e tornando-se humorados, quase brincando com aquela situação que ambos sabiam era absurda e por demais infantil.

A diretora da agência de modelos a que ambos pertenciam aproximou-se com Zelda e o irmão de Regina, contando aos dois que estavam negociando outro trabalho para os dois juntos. Que em breve seria divulgado caso fosse acertado. Voltaram ao silêncio constrangedor. O irmão de Regina olhou para ela, depois para Johnny, percebeu o silêncio cheio de troca de olhares, sorriu, esperou algum tempo para ver se um dos dois criaria coragem para dar o primeiro passo. Ao perceber que ninguém daria, chamou a irmã:

- Vamos? – perguntou contendo-se para não rir daquela situação.

Regina assentiu com a cabeça. Beijou Johnny no rosto e disse:

- Nos vemos daqui a alguns dias então.

- Verdade. – disse Johnny.

Johnny ficou observando Regina sair da sala. Queria chamá-la, tomá-la nos braços e beijá-la sem interromper. Lamentou sua própria timidez, jamais conseguia dar o primeiro passo sem ter a absoluta certeza de que conseguiria. Geralmente os olhares e sorrisos iguais aos de Regina dariam certeza a ele, mas não os de Regina, ela olhava e sorria para todo mundo daquele jeito. Podia significar alguma coisa, podia significar coisa alguma.

Naquele momento, Johnny tinha certeza de uma coisa, não seria ele a dar o primeiro passo.

Queria tentar uma terceira vez, poderia até dar errado, mas queria esta terceira vez e desta vez longe das câmeras. Mas não seria ele a dar o primeiro passo.

Bah, mais uns dias de espera. – pensou Johnny.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Viver um sonho. Parte um.


Este conto, dividido em partes, foi realmente incentivado por uma ofensa, uma espécie de censura, simplesmente por ter a capacidade de imaginar e me divertir com histórias românticas bobas. Se for bobo e acho que sou, ninguém tem nada a ver com isso. Não prejudica minha profissão, meu relacionamento familiar, nem prejudicou as relações com as mulheres que amei, pelo contrário, ter imaginação romântica sempre me ajudou. Apesar de poder ver os defeitos das pessoas, em relação às mulheres as ponho num pedestal de compreensão, aceitação, desejo e adoração. Se sofrer com isso, mais uma vez, é problema meu.

Como é um fan-fiction, é inspirado em casal, fruto da imaginação de muitos, que seres felizes que são, desejam a felicidade para estas duas pessoas que admiram. Então, com os nomes trocados, afinal usar os nomes reais é uma espécie de invasão de privacidade. Usarei os de personagens. Mas todos sabem a quem estarei me referindo, é claro.

Existe uma versão mais picante desta história, mas como não desejo tornar este blog impróprio para menores de dezoito anos, não a publicarei aqui.

Esta versão prende-se a parte escrita pela minha imaginação “infantil”. Aquela imaginação que deseja que as pessoas sejam felizes, que sorriam para o mundo, que iluminem as pessoas a sua volta, assim como o “casal” que a inspirou.

PRIMEIRA PARTE

Naquela altura da noite ela já estava com o coração batendo acelerado. Ela sabia que o dia seguinte seria mais do que importante, mas fundamental no seu futuro relacionamento com Johnny. Pela primeira vez ela teria um compromisso profissional, de modelo, com aquele que lhe chamou a atenção no reality show que participaram juntos. Dentro do reality eles tiveram encontros e desencontros, várias interferências externas que atrapalharam um romance que poderia ter acontecido de forma duradoura na casa em que viveram por mais de dois meses.

Ela tinha necessidade de dormir cedo, queria estar linda e descansada para que Johnny ficasse irremediavelmente encantado por ela. Tinha medo de tomar remédio para dormir e ficar com ressaca do remédio, tomou uma grande quantidade de suco de maracujá e deitou-se.

Por mais de uma hora mexeu-se de um lado do outro da cama até que adormeceu.

Acontece um lapso. Um portal abriu-se. Temporal? Dimensional? De realidade? Não importa. Regina estava perplexa, não sabia quando aquela festa começou. Suas amigas tinham chegado de surpresa, com balões de festas e línguas de sogra. Amanda, uma amiga de infância, olhava para ela e ria, curiosa Regina não resistiu e perguntou: “O que você aprontou?”

Amanda riu e respondeu: “Uma surpresa, já deve estar chegando”. Amanda e suas amigas tinham contratado um Stripper. Era uma festa de despedida de solteira e a festa era dela. Ela se casaria no dia seguinte.

Pouco tempo depois, tocou a campainha do quarto do hotel. Regina foi atender, ao abrir a porta sentiu as palpitações e o ar fugindo dos pulmões. Não sabia o que falar, encarava aqueles olhos verdes que tanto procurava com seus belíssimos olhos azuis, cor de piscina. Aqueles olhos verdes geralmente irradiavam alegria quando a via, mas naquele momento estavam tensos. Depois de algum tempo percebeu que ele estava molhado de chuva, ainda atordoada mandou-o entrar enquanto dizia em voz quase inaudível: “Johnny, o que você está fazendo aqui?”

Amanda ao perceber a presença de Johnny foi sensata, virou-se para as amigas e disse: “A festa acabou, vamos gente, amanhã nos vemos” Em poucos minutos elas pegaram suas bolsas e passando por Regina e Johnny despediam-se deles. Fecharam a porta deixando os dois amigos sozinhos para conversarem. Amanda pegou o celular e ligou para o número do stripper cancelando a apresentação. Pediu que ele mandasse um SMS com um número da conta de banco, que ela depositaria o valor acertado.

Assim que suas amigas fecharam a porta, antes que Regina pudesse pensar no que estava acontecendo, Johnny tomou-a nos braços pressionando-a contra a fria parede do quarto do hotel. Ela sentiu um volume na altura de seu estômago, por ser tão mais baixa que ele. Ele a beijou apaixonadamente, profundamente. O gosto daquela língua, tão conhecida, deixava-a excitada. Johnny interrompeu o beijo, afastou um pouco o rosto, olhou bem para ela enquanto tocava-a nos lábios com os polegares. Ele estava molhado de chuva, mas era ela quem estava sentindo-se afogada, sem ar. Queria mais, queria beijá-lo, queria mais do que beijá-lo. Johnny atendeu o pedido feito em pensamento, beijou-a mais uma vez. Ela sentindo as pernas bambearem afastou-se o suficiente para ganhar ar e poder perguntar: “Johnny, o que você faz aqui? Amanhã eu vou casar, você sabe disso”. Johnny deixou a tristeza perpassar por seus olhos, ainda assim respondeu de imediato: “Eu sei, estou me lixando” voltou a passar os polegares nos lábios de Regina e completou “Eu tinha de ver você, eu tinha de estar com você, eu tinha de ter você”. Regina suspirou e beijou gentilmente os polegares dele.

Regina não sabia o que estava fazendo, ela o queria, sabia que o queria, mas não podia entregar-se a ele, pensava enquanto voltaram a se beijar, cada vez mais intensamente. “Que saudade de seu cheiro” disse Johnny. Regina riu. “Compre o perfume e dê para suas namoradas” provocou Regina. “Você não sabe que o cheiro do perfume é uma combinação dele com o cheiro da pele? Esta combinação é única em você, você torna qualquer perfume especial”.

Regina olhava para Johnny com admiração misturada ao medo, sabia que não era certo o que desejava fazer, mas era o Johnny quem estava na frente dela. Ela pensava no que iria falar, mas os pensamentos se perdiam em meio à emoção de estar com ele. Enfim balbuciou: “Não posso”. Ele a olhou convicto e respondeu: “Pode e vai. Não me importa o amanhã. Esta noite é minha”. Johnny carregou-a no colo e enquanto beijava-a no pescoço levou-a até a cama, depositando-a gentilmente.

Johnny sentou-se ao lado dela e disse: “Eu farei desta noite a sua noite inesquecível, mostrar em gestos aquilo que não posso dizer a você, mostrar a você o quanto eu te amo”.

2 longos parágrafos censurados.

Depois daquela intensa noite de sexo e paixão, Regina aninhou-se no peito de Johnny e adormeceu.

Um segundo lapso temporal.

Regina olhou-se no grande espelho lateral de uma ante-sala. Estava lindíssima. Com o vestido de noiva que sempre sonhou. Seu pai segurava-lhe o braço. Entraram num grande salão aonde ao final estava um pequeno altar. Em pé, logo na entrada do salão estava Johnny. Ela sentiu o joelho falhar e estava quase caindo quando o pai percebeu e a apoiou para que permanecesse em pé.  No fim do salão percebeu a presença de Romário, outro participante do Reality show junto a seu irmão. Um choque a tomou. A consciência de que iria casar com Romário, mas já começava a relação traindo-o com Johnny.

Ela queria fugir, mas sabia que aquilo envergonharia a sua família. Amava a sua família. Ela não podia fugir. Queria pensar, mas olhava para Johnny. Via seu olhar profundamente triste. Nem percebeu que tocava a ária de Bach, DE BACH, como diria um estrangeiro em português: DA BACH, DABACH.

Regina sentiu tudo acontecendo muito rápido, ao menos aquela tortura não lhe seria lenta. Não sabia como chegou ao altar, percebeu apenas quando o padre fez a famosa questão: “Se alguém nesta sala sabe de alguma coisa que impeça este casamento que fale agora ou cale-se para sempre”. Regina sentiu o ar faltar-lhe, restava uma esperança, que Johnny interrompesse o casamento, não seria culpa dela. Seria em parte, ela sabia, mas não seria ela a tomar a decisão. Johnny, no entanto, ficou calado.

Na hora dos votos, Romário fez o seu. Na vez de Regina, a voz faltou-lhe. O Padre olhava-a com uma mistura de incompreensão e pressa. Ela não conseguia falar, as lágrimas escorriam pelo seu rosto. A respiração lhe faltava. Regina gritou. GRITOU.

O grito a despertou. Acordou suada. Olhou para o relógio, quatro e meia da madrugada. Em um misto de angústia provocada pelo sonho e alívio ao perceber que era um sonho, melhor, começou como um sonho e terminou como um pesadelo. Sabia que não conseguiria mais dormir aquela noite. Agora estava na expectativa de encontrar Johnny na sessão de fotos para uma revista de noivos, extremamente consciente de que o amava.

Resolveu ligar o rádio relógio e ouvir música para passar o tempo. Assim que ligou, estava iniciando uma música com Guilherme Arantes. “Amanhã. Será um lindo dia, da mais louca alegria, que se possa imaginar”.