Como marinheiro no Twitter, tenho observado
que o poder da palavra tem sofrido constantes reveses. A palavra, por si, pode
ter um longo alcance na compreensão do seu significado, mas este alcance será
sempre limitado pela palavra em si. Por outro lado, estas mesmas palavras
quando aderidas a um significado simbólico tornam o seu alcance limitado apenas
pelo poder da imaginação.
Um exemplo: Ontem, no BBB, Pedro Bial
lançou um desafio: “Quem você escolheria para ir a uma final com você”. Pelo
simples significado das palavras, as respostas não deveriam “ferir” os
sentimentos daqueles que foram “rejeitados” pelo participante. No entanto, na
hora da resposta da participante Fernanda. Bial fez um adendo a pergunta cheio
de significado simbólico: “Você está diante da escolha de Sofia”. Isso
transformou a resposta da Fernanda de inofensiva a potencialmente bruta. A
intervenção posterior de Bial tornou esta brutalidade monstruosa: “Kamilla, Fernanda
não quer você na final” Esta frase potencializou a brutalidade da resposta no
seu significado simbólico. Kamilla com sua extraordinária cultura, muito
possivelmente compreenderia todo o significado simbólico por trás das
intervenções do Bial.
A “Escolha de Sofia” refere-se ao livro de
William Styron adaptado e dirigido no cinema por Alan Pakula com a
interpretação única e com certeza a maior interpretação feminina de todos os
tempos da Meryl Streep no papel de Sofia. Sofia era uma prisioneira de Auschwitz
que teve que escolher entre o filho e a filha sobre quem iria para um campo de
trabalhos forçados (e uma possibilidade de sobrevivência) e quem iria para a
câmara de gás (a morte certa). Ou seja, a escolha de Sofia se resumia a uma
escolha entre a vida e a morte entre suas duas crianças.
A pergunta do Bial, com este adendo
simbólico deixou de ser um simples “quem você escolhe para ir a final com você?”
para ser “Quem você quer que viva (permaneça no BBB) ou morra (saia do BBB)”.
Kamilla, cuja inteligência deve beirar, se
não ultrapassar, a linha da genialidade, com a sua cultura (confirmada hoje
quando Kamilla disse que a escolha foi de morte da filha), acusou o golpe
desferido pelo simbolismo da pergunta do Bial associada a resposta desfavorável
a ela dada por Fernanda. A mesma Kamilla que escolheria Fernanda para a vida,
sem piscar os olhos, ouviu a preferência clara, e de certa forma lógica e
esperada, pelo André, seguida de uma desculpa esfarrapada de repartir o
anel em três, ainda incluindo a Andressa. Ao fim, para Kamilla significou
apenas que Fernanda nem piscou antes de deixa-la para a “Morte” a levar.
Enfim, a brutalidade da pergunta, com todo
o seu adendo simbólico, foi uma das maiores agressões psicológicas que já vi em
algum programa de televisão de ficção ou reality show. Kamilla reagiu,
erguendo-se do barro de bravura do povo Nortista, assimilou o golpe, isolou-se
no quarto do líder e refletiu. As decisões que esta menina tomar, qualquer que
sejam, terá o meu respeito e apoio. Eu, como nordestino, me junto aos irmãos do
norte, no orgulho por essa representante que está nos dando diariamente um
exemplo de inteligência, cultura e sensibilidade jamais vista em qualquer
reality show.
Parabéns Kamilla, simplesmente por existir.
Parabéns, povo do Pará, por ter representante tão digna a nos mostrar que as nossas
diferenças nos fazem mais semelhantes. Que uma pessoa de extrema beleza externa com
um interior de intensa luminosidade não é personagem de ficção, mas real. Que
tem defeitos, mas eles se tornam irrelevantes diante de suas qualidades.